Uma história que começa… fora do padrão
No começo dos anos 2010, era comum abrir um banco PostGIS ou um código JavaScript de mapa e encontrar algo meio estranho:
SRID=900913
Quem vinha da cartografia mais clássica estranhava imediatamente.
Quem vinha do desenvolvimento… aceitava e seguia o jogo.
Afinal, funcionava.
Mas ali já existia uma pequena ruptura silenciosa entre dois mundos: o da geodésia formal e o da web que precisava ser rápida.
Antes disso: o que é EPSG e por que ele manda nisso?
Para entender o incômodo, vale um pequeno desvio.
O tal do EPSG não é uma tecnologia — é um registro.
Ele é mantido historicamente por uma organização ligada à indústria de óleo e gás (hoje sob a IOGP), que precisava padronizar sistemas de referência para operações globais.
Esse registro define códigos numéricos — os famosos SRIDs (Spatial Reference IDs) — que dizem, de forma inequívoca:
- qual sistema de coordenadas está sendo usado
- qual datum
- qual projeção
- quais parâmetros matemáticos
Quando você usa EPSG:4326, por exemplo, não está só dizendo "latitude e longitude". Está dizendo:
"Estou usando WGS84 com todos os parâmetros definidos exatamente assim."
Isso é o que permite que:
- bancos como PostGIS funcionem corretamente
- softwares diferentes conversem entre si
- análises espaciais sejam reproduzíveis
Ou seja: EPSG é o idioma comum da geoinformação moderna.
E é justamente por isso que o 900913 incomodava.
O problema: a web não quis esperar
Enquanto o mundo institucional mantinha seu ritmo — cuidadoso, técnico, baseado em consenso — a web estava acelerando.
Com a chegada do Google Maps, uma nova lógica apareceu:
- mapas deixaram de ser imagens estáticas
- passaram a ser mosaicos de tiles
- o usuário podia arrastar o mundo com o mouse
Para isso funcionar em escala global, era preciso simplificar.
A solução adotada foi uma versão "adaptada" da projeção de Mercator:
- tratada como esfera (não elipsoide)
- coordenadas em metros
- fórmulas simples o suficiente para rodar rápido em qualquer navegador
Do ponto de vista cartográfico, isso era… questionável.
Do ponto de vista de produto, era brilhante.
E então veio o 900913
Como essa projeção não existia oficialmente no registro EPSG, surgiu um problema prático:
Como salvar isso no banco?
A resposta da comunidade foi direta, quase irreverente:
"A gente inventa um código."
Nasceu o 900913 — que, não por acaso, lê-se "GOOGLE" de cabeça para baixo.
Não foi aprovado por ninguém.
Não passou por comitê.
Não teve validação formal.
Mas rapidamente apareceu em todo lugar:
- bibliotecas como OpenLayers
- stacks de mapas web
- bancos espaciais
- pipelines de dados
Era uma convenção de fato.
O incômodo (com bons motivos)
Para quem vinha da cartografia e da geodésia, aquilo não era só feio — era perigoso.
A crítica não era birra técnica, era fundamento:
- a projeção ignorava o elipsoide da Terra
- distorcia áreas de forma significativa
- não era adequada para medições
- não tinha definição formal no padrão global
Em outras palavras:
aquilo quebrava a principal promessa do EPSG — consistência e rigor.
A resposta do outro lado
Mas a web tinha outra métrica de sucesso.
O usuário não perguntava sobre datum.
Ele queria:
- dar zoom sem travar
- arrastar o mapa sem delay
- ver o mundo inteiro carregando rápido
E nesse cenário, a tal projeção "errada" funcionava perfeitamente.
O que estava em jogo ali não era só uma escolha técnica — era uma mudança de paradigma:
da precisão científica para a experiência interativa.
Quando a prática força o padrão
Com o tempo, ignorar aquilo ficou impossível.
A projeção já era usada globalmente.
Empresas, governos e plataformas dependiam dela.
Então veio a decisão inevitável: formalizar.
O EPSG finalmente incorporou a definição como:
EPSG:3857 — WGS 84 / Pseudo-Mercator
O nome já entrega a negociação:
- "WGS 84" para manter o vínculo institucional
- "Pseudo" para admitir que não é a Mercator clássica
O 900913 desapareceu aos poucos.
Mas deixou sua marca.
O que essa história ensina (na prática)
Hoje, a distinção é mais clara — mas o risco continua:
- usamos 3857 para visualização web
- usamos sistemas projetados (UTM, por exemplo) para análise
Misturar esses contextos ainda gera erros comuns:
- cálculo de área em Web Mercator
- buffers distorcidos
- análises com escala inconsistente
Onde a engenharia entra (e evita dor de cabeça)
É aqui que uma boa arquitetura de geoprocessamento faz toda a diferença.
Na Coordenada Geo, a regra é simples, mas levada a sério:
cada tarefa usa a projeção correta — e isso é transparente para quem usa a plataforma.
Na prática, isso significa separar claramente dois mundos:
Visualização
- EPSG:3857 (Web Mercator)
- otimizado para tiles, front-end e interação
Processamento analítico (no banco)
Dependendo do problema, usamos projeções diferentes:
-
Cálculo de área
- UTM (SIRGAS 2000 / zonas, ex: EPSG:31982–31985 no Brasil)
- ou projeções equivalentes adequadas à região
- evita distorções graves de área
-
Distância e buffers locais
- UTM ou projeções métricas locais
- garante que 1 km seja realmente 1 km
-
Análises em escala continental/global
- geodésicas sobre EPSG:4326 (WGS84)
- uso de funções esféricas/esferoidais (ex:
ST_DistanceSphere,ST_Area(geography)no PostGIS)
-
Rotas e redes
- modelos baseados em grafos com métricas reais (não em Web Mercator)
- integração com dados viários coerentes com o sistema de referência
O ponto central é:
EPSG:3857 nunca entra no cálculo — só na tela.
Pode parecer detalhe, mas é exatamente esse tipo de cuidado que separa:
- um mapa "bonito"
- de um sistema que sustenta decisão técnica
Uma última leitura possível
O episódio do 900913 não foi um acidente.
Foi um sinal de que o geoprocessamento entrou de vez no mundo do software.
E quando isso acontece, algumas coisas mudam:
- padrões passam a competir com adoção
- elegância matemática disputa espaço com performance
- e, às vezes, uma gambiarra bem feita vence uma solução perfeita
Mas, no fim, sistemas maduros fazem as pazes com os dois lados.
Para quem quiser ir além
- Registro oficial EPSG: https://epsg.org/
- Definição do 3857: https://epsg.io/3857
- Histórico da "Spherical Mercator": https://wiki.osgeo.org/wiki/Spherical_Mercator
- Documentação do OpenLayers sobre projeções: https://openlayers.org/doc/tutorials/projections.html
Se você já viu um SRID=900913 perdido em algum banco por aí,
agora sabe: não era erro.
Era história — e um lembrete de que projeção errada no lugar errado ainda custa caro.

