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EPSG:900913 — uma pequena rebelião que mudou o WebGIS

Antes de ser padrão, a projeção mais usada da web foi uma gambiarra com nome de piada. E isso diz muito sobre como o WebGIS evoluiu.

Publicado em 23 de abril de 2026

Uma história que começa… fora do padrão

No começo dos anos 2010, era comum abrir um banco PostGIS ou um código JavaScript de mapa e encontrar algo meio estranho:

SRID=900913

Quem vinha da cartografia mais clássica estranhava imediatamente.
Quem vinha do desenvolvimento… aceitava e seguia o jogo.

Afinal, funcionava.

Mas ali já existia uma pequena ruptura silenciosa entre dois mundos: o da geodésia formal e o da web que precisava ser rápida.

Antes disso: o que é EPSG e por que ele manda nisso?

Para entender o incômodo, vale um pequeno desvio.

O tal do EPSG não é uma tecnologia — é um registro.
Ele é mantido historicamente por uma organização ligada à indústria de óleo e gás (hoje sob a IOGP), que precisava padronizar sistemas de referência para operações globais.

Esse registro define códigos numéricos — os famosos SRIDs (Spatial Reference IDs) — que dizem, de forma inequívoca:

  • qual sistema de coordenadas está sendo usado
  • qual datum
  • qual projeção
  • quais parâmetros matemáticos

Quando você usa EPSG:4326, por exemplo, não está só dizendo "latitude e longitude". Está dizendo:

"Estou usando WGS84 com todos os parâmetros definidos exatamente assim."

Isso é o que permite que:

  • bancos como PostGIS funcionem corretamente
  • softwares diferentes conversem entre si
  • análises espaciais sejam reproduzíveis

Ou seja: EPSG é o idioma comum da geoinformação moderna.

E é justamente por isso que o 900913 incomodava.

O problema: a web não quis esperar

Enquanto o mundo institucional mantinha seu ritmo — cuidadoso, técnico, baseado em consenso — a web estava acelerando.

Com a chegada do Google Maps, uma nova lógica apareceu:

  • mapas deixaram de ser imagens estáticas
  • passaram a ser mosaicos de tiles
  • o usuário podia arrastar o mundo com o mouse

Para isso funcionar em escala global, era preciso simplificar.

A solução adotada foi uma versão "adaptada" da projeção de Mercator:

  • tratada como esfera (não elipsoide)
  • coordenadas em metros
  • fórmulas simples o suficiente para rodar rápido em qualquer navegador

Do ponto de vista cartográfico, isso era… questionável.

Do ponto de vista de produto, era brilhante.

E então veio o 900913

Como essa projeção não existia oficialmente no registro EPSG, surgiu um problema prático:

Como salvar isso no banco?

A resposta da comunidade foi direta, quase irreverente:

"A gente inventa um código."

Nasceu o 900913 — que, não por acaso, lê-se "GOOGLE" de cabeça para baixo.

Não foi aprovado por ninguém.
Não passou por comitê.
Não teve validação formal.

Mas rapidamente apareceu em todo lugar:

  • bibliotecas como OpenLayers
  • stacks de mapas web
  • bancos espaciais
  • pipelines de dados

Era uma convenção de fato.

O incômodo (com bons motivos)

Para quem vinha da cartografia e da geodésia, aquilo não era só feio — era perigoso.

A crítica não era birra técnica, era fundamento:

  • a projeção ignorava o elipsoide da Terra
  • distorcia áreas de forma significativa
  • não era adequada para medições
  • não tinha definição formal no padrão global

Em outras palavras:

aquilo quebrava a principal promessa do EPSG — consistência e rigor.

A resposta do outro lado

Mas a web tinha outra métrica de sucesso.

O usuário não perguntava sobre datum.
Ele queria:

  • dar zoom sem travar
  • arrastar o mapa sem delay
  • ver o mundo inteiro carregando rápido

E nesse cenário, a tal projeção "errada" funcionava perfeitamente.

O que estava em jogo ali não era só uma escolha técnica — era uma mudança de paradigma:

da precisão científica para a experiência interativa.

Quando a prática força o padrão

Com o tempo, ignorar aquilo ficou impossível.

A projeção já era usada globalmente.
Empresas, governos e plataformas dependiam dela.

Então veio a decisão inevitável: formalizar.

O EPSG finalmente incorporou a definição como:

EPSG:3857 — WGS 84 / Pseudo-Mercator

O nome já entrega a negociação:

  • "WGS 84" para manter o vínculo institucional
  • "Pseudo" para admitir que não é a Mercator clássica

O 900913 desapareceu aos poucos.
Mas deixou sua marca.

O que essa história ensina (na prática)

Hoje, a distinção é mais clara — mas o risco continua:

  • usamos 3857 para visualização web
  • usamos sistemas projetados (UTM, por exemplo) para análise

Misturar esses contextos ainda gera erros comuns:

  • cálculo de área em Web Mercator
  • buffers distorcidos
  • análises com escala inconsistente

Onde a engenharia entra (e evita dor de cabeça)

É aqui que uma boa arquitetura de geoprocessamento faz toda a diferença.

Na Coordenada Geo, a regra é simples, mas levada a sério:

cada tarefa usa a projeção correta — e isso é transparente para quem usa a plataforma.

Na prática, isso significa separar claramente dois mundos:

Visualização

  • EPSG:3857 (Web Mercator)
  • otimizado para tiles, front-end e interação

Processamento analítico (no banco)

Dependendo do problema, usamos projeções diferentes:

  • Cálculo de área

    • UTM (SIRGAS 2000 / zonas, ex: EPSG:31982–31985 no Brasil)
    • ou projeções equivalentes adequadas à região
    • evita distorções graves de área
  • Distância e buffers locais

    • UTM ou projeções métricas locais
    • garante que 1 km seja realmente 1 km
  • Análises em escala continental/global

    • geodésicas sobre EPSG:4326 (WGS84)
    • uso de funções esféricas/esferoidais (ex: ST_DistanceSphere, ST_Area(geography) no PostGIS)
  • Rotas e redes

    • modelos baseados em grafos com métricas reais (não em Web Mercator)
    • integração com dados viários coerentes com o sistema de referência

O ponto central é:

EPSG:3857 nunca entra no cálculo — só na tela.

Pode parecer detalhe, mas é exatamente esse tipo de cuidado que separa:

  • um mapa "bonito"
  • de um sistema que sustenta decisão técnica

Uma última leitura possível

O episódio do 900913 não foi um acidente.

Foi um sinal de que o geoprocessamento entrou de vez no mundo do software.

E quando isso acontece, algumas coisas mudam:

  • padrões passam a competir com adoção
  • elegância matemática disputa espaço com performance
  • e, às vezes, uma gambiarra bem feita vence uma solução perfeita

Mas, no fim, sistemas maduros fazem as pazes com os dois lados.

Para quem quiser ir além


Se você já viu um SRID=900913 perdido em algum banco por aí,
agora sabe: não era erro.

Era história — e um lembrete de que projeção errada no lugar errado ainda custa caro.